Pitinga guarda vestígios de um antigo vulcanismo de milhões de anos
Vídeo de Vinícius Parracho chamou atenção para as formações rochosas da praia; diante dos questionamentos, o geólogo Caio Turbay explicou a origem das pedras e a importância desse patrimônio geológico do sul da Bahia.

Quem olha para as pedras que aparecem na Praia de Pitinga, em Arraial d’Ajuda, pode imaginar que está diante de mais uma formação típica do litoral baiano. Mas aquelas rochas guardam uma história que remonta a milhões de anos e está relacionada a um antigo episódio de vulcanismo.
A descoberta ganhou repercussão depois que Vinícius Parracho gravou e publicou um vídeo mostrando as formações rochosas de Pitinga e explicando que elas seriam remanescentes de lava vulcânica. A informação chamou a atenção de moradores, visitantes e internautas, mas também provocou questionamentos.
Diante das dúvidas, Vinícius decidiu ouvir um especialista. Ele convidou o geólogo e professor Caio Turbay, responsável por pesquisas relacionadas à geologia da região, para explicar o que existe, de fato, naquele trecho do litoral.
“Eu postei um vídeo ontem falando sobre o vulcanismo na Pitinga e algumas pessoas não acreditaram”,
A partir daí, Caio explicou a origem das rochas e ajudou a esclarecer uma série de dúvidas que surgiram após a publicação do primeiro vídeo.
Uma das poucas evidências desse vulcanismo em terra
Segundo Caio Turbay, as rochas encontradas em Pitinga são uma das poucas representações em terra firme desse antigo episódio vulcânico.
O fenômeno está relacionado a um derrame vulcânico que ocorreu há milhões de anos e que também está associado à formação do Banco de Royal Charlotte, uma extensa estrutura da plataforma continental brasileira.
De acordo com o especialista, as idades disponíveis na literatura indicam que as porções mais jovens desse derrame ocorreram há aproximadamente 28 milhões de anos.
Esse dado é importante porque a afirmação inicial de que as pedras teriam 20 milhões de anos deve ser tratada com cautela. A explicação apresentada por Turbay aponta para cerca de 28 milhões de anos para as porções mais jovens do derrame, conforme as idades registradas na literatura citada pelo pesquisador.
Mas onde está o vulcão?
Uma das perguntas mais naturais depois de ouvir falar em lava é: onde está o vulcão?
A resposta de Caio Turbay é que não se trata necessariamente daquele vulcão clássico que costuma aparecer nos livros, com um grande cone, uma cratera e lava escorrendo pelas encostas.
Segundo o geólogo, o fenômeno está associado a um tipo de vulcanismo que ocorreu no interior da placa tectônica, fora dos limites entre placas.
Para explicar o processo, ele compara o fenômeno a um maçarico localizado na base da litosfera. O calor favoreceria a formação de magma em profundidade, que poderia subir por condutos e fraturas da crosta até alcançar a superfície.
Esse vulcanismo também é descrito pelo pesquisador como fissural, ou seja, relacionado à ascensão do magma por fraturas, sem necessariamente produzir um grande edifício vulcânico.
E há outro detalhe fundamental: grande parte desse processo aconteceu em ambiente submarino.
Lava que correu onde hoje está o litoral
Quando essas lavas chegaram à superfície, encontraram um ambiente muito diferente da paisagem que conhecemos atualmente.
Segundo Turbay, o material vulcânico entrou em contato com sedimentos finos, lama e silte. Essa interação deu origem a uma rocha vulcânica específica conhecida como peperito, formada pela mistura entre lava e sedimentos.
O episódio deixou registros que permanecem preservados nas rochas de Pitinga.
As estruturas que parecem cordas
Uma das características mais curiosas dessas formações são as estruturas alongadas que lembram cordas.
Elas também ajudam a entender como a lava se movimentava.
À medida que a lava fluía, a parte externa entrava em contato com o ambiente mais frio e se solidificava. Formava-se uma espécie de casca, enquanto o interior permanecia quente e continuava recebendo lava líquida.
Esse processo podia produzir estruturas semelhantes a tubos, deixando marcas do antigo fluxo vulcânico.
É justamente uma dessas características que torna as rochas de Pitinga tão interessantes do ponto de vista geológico.
Não é a mesma coisa que a “beach rock”
Outra dúvida levantada após o vídeo de Vinícius foi a possibilidade de aquelas pedras serem apenas uma continuação dos conhecidos cordões de beach rock encontrados no litoral da região.
Caio Turbay explica que não.
As beach rocks são rochas sedimentares, formadas a partir de antigas praias que foram naturalmente cimentadas quando o nível do mar estava diferente do atual.
Já as rochas vulcânicas de Pitinga têm origem magmática.
Embora possam apresentar uma aparência semelhante à distância — especialmente depois de milhões de anos de exposição e intemperismo —, elas possuem origem, composição, textura e estruturas diferentes.
Segundo o geólogo, a aparente continuidade visual entre os dois tipos de rocha pode levar à confusão, mas uma análise mais detalhada revela que são formações distintas.
Onde mais essas rochas aparecem?
Durante a conversa, Vinícius também perguntou se existiriam outros pontos do litoral onde esse vulcanismo pudesse ser observado.
Turbay explicou que, além da Ponta da Pitinga, existe um pequeno afloramento relacionado a essas rochas na região da Praia do Parracho, que pode aparecer durante marés muito baixas.
São, segundo ele, algumas das poucas áreas em que esse material vulcânico pode ser observado diretamente no litoral do sul da Bahia.
Um patrimônio da geodiversidade
Para além da curiosidade, a existência dessas rochas possui importância científica e histórica.
Caio Turbay destaca o conceito de geodiversidade, que representa a variedade de rochas, minerais, estruturas geológicas, formas de relevo e processos que ajudam a contar a história de uma determinada região.
Nesse contexto, as rochas vulcânicas de Pitinga são particularmente relevantes porque permitem observar em terra parte de um fenômeno que ocorreu predominantemente em ambiente submarino.
Elas funcionam como uma espécie de registro natural da evolução geológica do litoral baiano.
Da dúvida nas redes sociais à explicação científica
A história também mostra como uma dúvida surgida nas redes sociais pode levar a uma investigação mais aprofundada.
Vinícius Parracho registrou as formações, apresentou a informação ao público e, depois dos questionamentos recebidos, decidiu procurar quem pudesse explicar o fenômeno com conhecimento científico.
Foi assim que o vídeo ganhou um segundo capítulo: em vez de deixar as dúvidas sem resposta, Vinícius levou as perguntas diretamente ao geólogo Caio Turbay.
A conversa esclareceu que as pedras realmente estão relacionadas a um antigo episódio de vulcanismo, mas também mostrou que a história é mais complexa do que a simples ideia de “um vulcão em Pitinga”.
Não há necessariamente uma grande montanha vulcânica escondida na região. O que existe é o registro geológico de um processo que ocorreu há milhões de anos, em grande parte sob o mar, e que deixou algumas de suas marcas preservadas no litoral.
Uma história de milhões de anos à beira-mar
Hoje, quem visita Pitinga vê falésias, mar e formações rochosas que fazem parte da paisagem de Arraial d’Ajuda.
Mas aquelas pedras também contam uma história muito mais antiga.
Elas registram um período em que o ambiente da região era completamente diferente, quando lavas ascendiam das profundezas, chegavam à superfície e se espalhavam por um ambiente predominantemente submarino.
E foi justamente uma dessas histórias escondidas na paisagem que Vinícius Parracho decidiu mostrar ao público.
Depois dos questionamentos, ele procurou o geólogo Caio Turbay para explicar o fenômeno, transformando uma curiosidade compartilhada em uma oportunidade de conhecer melhor a história geológica do sul da Bahia.
Em Pitinga, parte da história da Terra continua exposta diante do mar.









